"Multiple gunshots fill the block,
the fun stops Niggaz is callin cops,
people shot, nobody stop
I wonder when the world stopped caring last night
(..)
I can feel it coming in the air tonight, oh Lord
I've been waiting for this moment all my life, oh Lord"
:: Ignorânci é Dadiva / Conhecimento é maldição ::De inicio eu confundia com loucura e paranoia. Quando você ve que por traz de atos simples existem impulsos, motivos e em alguns casos, razões friamente calculadas impulcionando até mesmo uma simples troca de olhares.
Nessa época eu duvidava da realidade... existencia e falsidade andão tao juntos que era mais simples pensar que o real era irreal do que saber as tantas mentiras da vida.
Hoje eu sou amadiçoado com a capacidade de ver. Alguns chamam isso de olhar sociológico, outros simplesmente de empatia ou alteridade. Pra ter uma ideia pratica, pense em Matrix, o filme. Pois bem, é como, em alguns casos, poder ver o código que corre dentro das pessoas e mais, o código que corre entre elas, que costura suas interações, num sistema complexo de resultados imdesvendaveis.
É como a maldição do cyclop, que na mitologia, trocou um olho para poder ver o futuro. Ironicamente, atraiçoado pelo deus com quem negociara, o unico futuro que ele pode ver é o dia de sua morte.
Hoje eu sei enchergar as coisas, e tudo que vi me faz carregar a cruz do fato que no mundo as coisas são piores que a mera realidade aparente. Pela constatação da putrefação da vida mundana, aprendia a valorizar a beleza fugas das pequenas coisas que ainda nao se corromperam com essa vida.
E pela mesma razão, levantei fortalezas para proteger qualquer coisa de bom que ainda esteja esquecida dentro de mim.
Um aviso: não se aproxime, a não ser que sob o risco de eu vislumbrar o teu espirito.
"And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time"
:: Bela do Bar ::(Salamanca - 22/3/04)
Eram quatro da manha, a marcha estava naquele momento clássico em que os bares começam a fechar e as boates ainda não encheram. Entrei em um pequeno pub. Ainda tinha gente suficiente para dificultar o caminho até o balcão. Ao chegar peço ao barmen um aguardente de ervas e sou atendido com a impessoalidade da pressa de costume.
No canto oposto do bar vejo uma jovem que me chama a atenção. Levava um cabelo femininamente curto, do qual saiam leves mechas avermelhadas. Dançava como quem quisera libertar seu corpo ou libertar-se a mente dos limites que a física impõe ao direito de dançar.
A musica não ia além do disco habitual... decido me aproximar para observa-la melhor.
Levava as sutilezas da luxúria em seu traje noturno. O tecido sintético da blusa e da calça definiam o corpo. Expostos, braços e ombros mostravam a leveza de uma musculatura exercitada e revelava detalhes sutis de uma elaborada lingerie escolhida com cuidado de modo a alimentar intimamente a vontade de uma paixão que de surpresa lhe tomasse por inteiro e que lhe propiciasse o momento de desejo onde pudesse mostra-la como a moldura de uma pintura, um quadro perfeito cuja imagem fosse capaz de revelar em si a beleza profana de uma divina criatura. Me pus a imaginar-la em frente ao espelho combinando saltos e cintos, sonhos e roupas e festas e noites.
Eram quatro da manha, a marcha estava naquele momento clássico em que os bares começam a fechar e as boates ainda não encheram. Terminei minha dose e guardei aquele instante no bolso. Sai pela porta do bar apreciando a torre medieval que se levantava alto ao céu, cortando as brumas da fria madrugada.
Desci as escadas, caminhei até o final da pequena praça e volvi meu olhar a janela do bar. Baixo um neon mal acendido, detrás do vidro da janela, a vi pela última vez. Como passageira de um trem que mira a paisagem na janela lateral, foi-se do jeito que veio e ficou como nunca vai estar em nenhum outro lugar. Se buscava o que ver dentro do turbilhão de coisas que passava, ficou como um quadro jogado do alto de uma ponte, visto por um pássaro que voava rente ao rio.
Eram quatro da manha do primeiro dia de primavera. Meus pés cansados se acertavam dentro do coturno mal lustrado. Os ladrilhos de pedra por onde pisava, o relógio da praça e o barulho de vozes ao meu redor me lembravam que ainda faltavam quatro horas para o fim da noite. Deslizando meu olhar às estrelas suspirei. O frio de quatro graus converteu o ar de minha boca em uma fumaça grossa... repeti o gesto como quem dava uma longa tragada no cigarro da vida. Podendo ver a ponta do cigarro queimando, soltei lentamente o ar nebuloso pela boca, degustando-o, como tantas vezes o fiz em um tempo não muito remoto e, então, parti.