:: entre a cruz a manguaça e a insignificância universal ::


Jesus sendo crucificado e eu aqui... de ressaca. Acho que no fim das contas, é uma forma pessoal e cotidiana de experimentar a via crucis.

Dominar o fluxo do tempo é como a fuga de Papilon, é tudo sobre paciência e observação, sobre como perceber o comportamento das correntes para, um dia, aproveitar uma janela de confluência e navegar para longe das paredes de pedra que lhe aprisionam.
No fundo, toda a existência humana é um sonho de cenobitas, é a vida num corpo transpassado por cordas puxadas por forças que nos empurram, ininterruptívelmente, por entre o tempo, através das décadas, rasgando o tecido temporal e, com ele, desgastando-nos até que este corpo sucumba à sua própria limitação química e, neste momento-instante de colapso, toda a energia que lhe navega se desfaz, liberando as inúmeras cordas que retornam a seu repouso universal... ao menos, até que outro louco resolva cavalga-las.

Não adianta olhar para o futuro, querendo entende-lo se vc não enxerga o próprio passado. Teus oráculos só te revelarão o que vc é.
Não adianta querer esperar que o tempo lhe transforme o futuro e lhe mude a vida. Toda a existência humana se limita a experimentar o percorrer do caminho e não o destino final, (até pq, o único futuro certo que todos temos é sabe o nosso final).

E até lá, vou harmonizar chocolate belga com vinho de colheita tardia e tentar encurtar o meu caminho até a ressurreição.
Os inimigos que combati, vi sucumbirem no caminho. Sucumbiram pela ação das intemperes, mas se foram com o passar do tempo, lentamente, como se vai a duna pela ação da briza.
Eu mesmo muito pouco conquistei, mas de uma forma ou de outra meus objetivos me alcançaram.

Na tormenta da vida cotidiana os ventos que me jogaram contra a costa deterioraram as pedras que la me esperavam e no fim, restou apenas eu inútil na imensidão.

E eis que coube a mim, arauto de um grito mudo, cavalgar a tempestade.
Excitement: much more about Desire than Satisfaction
O Jogo da Vida é um eterno deja vu.

Até um beco sem saída é um fim em si mesmo...

"quando você olha muito tempo para o abismo,
o abismo passa a olhar para você"


p.s: ainda retomo isso este ano...
"medo de espelhos e coitos..."

Alguns dizem que a noite todos os gatos são pardos... talvez fosse mais factível dizer que na noite todos os sóbrios são insanos.
Festa em casa afastada, com um monte de gente, mas não se reconhece ninguém. Sensação de claustrofobia em espaço aberto, de aperto extrovertido, de falta de um terreno seguro, de que a qualquer momento acontecerá algo inesperado.
Entra, passa por uma porta, percorre-se umas paredes e a obviedade não lhe faz muito sentido. Ignora-se todas as conclusões que a razão insiste em apresentar.
A angustia prevalece onde a monotonia do silencio se confunde com a homogeneidade do barulho.... busca-se um ritmo, uma batida... que mova o corpo, que ocupe a mente e que sirva de alicerce para o que não se sustenta estaticamente em pé.

Para na fila do banheiro e toma um tapa de filosofia noturna: olha no espelho e escuta um ebrio balbuciando algumas certezas - que certamente possuía um sentido maior, um contexto longamente apresentado - e tudo o que se ouve é: "tenho medo de espelhos e coitos! Pois eles multiplicam o ser humano".